sábado, outubro 9

Mais amor

.



O amor é um grande laço, um passo pr'uma armadilha
Um lobo correndo em círculos pra alimentar a matilha
Comparo sua chegada com a fuga de uma ilha:
Tanto engorda quanto mata feito desgosto de filha

O amor é como um raio galopando em desafio
Abre fendas cobre vales, revolta as águas dos rios
Quem tentar seguir seu rastro se perderá no caminho
Na pureza de um limão ou na solidão do espinho


O amor e a agonia cerraram fogo no espaço
Brigando horas a fio, o cio vence o cansaço
E o coração de quem ama fica faltando um pedaço
Que nem a lua minguando, que nem o meu nos seus braços




Djavan



.

quarta-feira, outubro 6

Quadro abstrato

.








O grande e gracioso peixe de escamas peroladas e olhos de cristal está contornado por folhas e gavinhas por onde passeiam besouros solitários e preciosos em azul e vermelho, num cenário misto de flores desabrochadas e maduras frutas cítricas.
Uma grande roda gigante antiga e cansada de seus giros eternos, repousa sobre sua cabeça como uma coroa bem adornada em detalhes e curvas torcidas.
Acima o segue uma ilha flutuante de montanhas rochosas altas e adormecidas e que abriga uma paisagem de coqueiros e mata. Um balão arco-íris, em destino de passagem, paira no céu da ilha sobre as praias de areias brancas de lá.
Desce o céu e a ilha se desenrolando pela sua escada de cordas até o peixe.
Em alguns passos se fez o rastro de pegadas pelas areias seguindo adentro e voltando das matas até o extremo onde se finda.
As escadas, a altura e a roda gigante; assim estão o peixe e o balão presos aos seus céus e ao caminho até a roda gigante. Ali parado e o giro das cordas e das madeiras.
Entrando a roda, a pintura de outra época em amarelo e vermelho tem indicadas sua entrada e saída pela mesma catraca já enferrujada e fincada ao chão.
Revezam-se os degraus das cordas na ilha e na roda do gigante.
Sobe e desce a iluminação de alguém simples no seu mundo. Caindo das nuvens e do oceano. Das viagens e de onde tocou o chão. De jeans e verde adentra o sonho do peixe. Brinquedo de sua alma. Caminho das maravilhas a girar por sua vida.








Aquarela do artista e arquiteto Edgar do Vale.






.

sábado, agosto 14

TEMPO

.







És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...

Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo...

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo...

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo...

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo...

O que usaremos prá isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo...

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo...

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo...

Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo...




Caetano V.



....................................





De jangada leva uma eternidade
De saveiro leva uma encarnação

De avião o tempo de uma saudade





G. Gil




.

quarta-feira, agosto 4

.





Morte

Seguir em frente...
Saudades e nenhuma conformação sobre o que julgamos deixar de existir.
A existência segue sendo como aqui e só e assim partir é deixar de pertencer.
Mas de onde se é? É uma compreensão louca.
Concepção de ideias e ideais.
Mesmo sendo a convicção uma Dama de difícil conquista.



Vago lento nesse abstrato em busca de revelações discretas próprias da curiosidade.
Talvez considere algo tão próximo como são os sonhos onde vozes eternas ecoam sugestões e contam sobre mistérios e milagres.
Nada sei.
Mas não é simplesmente o fim.




.

quarta-feira, julho 14

Com ciência

.







Preciso frear o carro.
Chegou o momento de falar com você.
Só a consciência é quem vai seguir agora.

Vamos sair daqui dessa roupa. Crus.
Só assim que se pode lembrar o vento.
Como vai tocar meu corpo? (Havia esquecido essa intimidade).
Bem, pergunto pra minha inteligência estúpida, carente da atenção dos livros depois.

Agora te vejo meu eu que nunca nasceu, mas que sempre foi o miolo da coisa toda.
Venha pra fora! Saia do seu átrio! O mundo é só um cômodo.

O nascimento acontece uma vez da mesma forma que cada idade.
Ambos são puramente descobertas.
Vai ter de tocar nelas e às vezes vai sangrar.





Venha aprender a julgar o belo.
Partir corações, Discordar dos pais, e brigar com os amigos. Nessas horas o amor cuida de você.
É preciso existir e não se preocupe; você não será percebido.
Apenas pelas árvores do passeio e pela grama pisada.
Vão te olhar e ver uma máscara, estará bem disfarçado de si mesmo.

Você vai gostar, só não se acostume a gostar; lembre que não dá pra voltar quando a coisa toda começa. Vai ter que ver o fim acontecendo e pode causar certo incômodo.
Melhor ser cauteloso.

Praticamente é sempre assim: Subida. Tempo gera experiência e experiência eleva sempre. Oxigênio, por motivos óbvios. E água, muita água. 1litro e ½ ao dia no mínimo.
O resto também tem de sobra. Supérfluo não falta lá fora.

Ah... Posso procurar em algumas gavetas, são elas que guardam os segredos.
Deve ter algum método guia esquecido pra te ajudar.
Vou precisar ascender a luz. Dói, mas é só apertar um pouco os olhos e a vista vai acostumar.

Nossa! Quantos brinquedos egoístas colecionados com devoção, eu bem devia saber que aqui estaria propício a isso mesmo, mas também sei que não se vence a surpresa quando ela vem. Pelo menos gostei daquele ali, o palhaço traído de riso gratuito.

Dentro do cômodo entupido de tantos anos passados;
Parede, chão e teto são o que mais se tem de cansado.
Ali só a janela se renova e é isso que você nunca entendeu. Mas é porque vem de fora pra dentro. Logo tudo estará esclarecido.

Vê-se o mundo, mas não dá vontade de sair eu sei. No começo é assim.
Mas as suas lembranças estão lá viajando e rápido.
passando sempre. Sua história também está por lá e infelizmente vai precisar de ambas. Não se existe sem a própria história e lembranças.

Infelizmente não encontrei o guia, mas lembro que lá dizia pra deixar tudo rolar. Ou será que escutei alguém dizer isso? Enfim... De qualquer forma, assim tenho feito algumas vezes e acredito que valeria pra você também.





E quando acontecer alguma coisa procure só assistir.
Participar quase sempre é mais caro e nem sempre compensa. Enquanto não souber avaliar, assista. Não se pode desperdiçar quando não se sabe o que tem.

E sim. Vai ter sempre de esperar tudo; tanto a vez, quanto a véspera.
Engraçado nunca foi, mas dá pra achar a graça de repente.

Partir sempre obriga carregar muito e perder algo. Nada que impeça de atravessar os lados.
Vamos hoje, te acompanharei até na solidão.
Vamos hoje, mesmo eu não tendo dormido direito.
Não estou reclamando, mas desculpe se me tornar um pouco ausente pelo cansaço de algum momento; além do mais, o pensamento me chama a atenção pras coisas de lá do lado de fora.

Uma última coisa; grita! Dança! E corre sempre que puder; é um bom sinal pra encontrar seu rumo. Não se vai apenas caminhando e pra tudo isso também existe estrada. Segue, segue e segue mesmo que lhe falte a sorte.
Lembro bem que veio dela todo o motivo da tristeza do nosso palhaço traído. Ainda assim ele nunca deixou de sorrir. Penso que a felicidade dispensa a sorte. Ela é dona de si e voa livre.
Tive que aprender isso antes de vir aqui te buscar.









.

quinta-feira, julho 1

.
















Acredite se quiser

Que...

"o Cavaleiro das luas e das estrelas
Abriu o céu, desceu e me ofertou
Um livro aberto na página brilhante
Que nesse instante uma poeira iluminada
me assustou
Falava de Andrômeda,
A dona da constelação do Escorpião,
Falou da outra estrela na ponta do Cruzeiro,
Falou das quatro luas
A nova, a que cresce, a cheia e a que diminui
Que a primeira, quando se esconde na escuridão,
é de mentira, pra nos tomar o coração
Me ensinou coisas que vi
E que nem são daqui





E, de repente, acordei com o ronco da trovoada"...











Gil e Milton




.

quinta-feira, junho 17

Lua de São Jorge

.













...nobre porcelana, sobre a seda azul.




Caetano V.




.