quinta-feira, março 29

Como uma ordem

.




Escondido na nuca.
Pairando entre atributos e melancolia.
Medo que freia os anseios.  Que cheira a impressão alheia.
Mede o que se pode alcançar do teto ao chão.
Da raiz dos nervos; da fadiga que desaba.
Disseca a tarefa particular e retraída do poeta.
Troca o consolo por meias palavras.
Com força de semente, ardência de choro noturno.
Desafio bruto de despir e tornar cru passado a ser começo.

                                                                     (Landeira)
















Artista - Remédios Varo; "Armonia".




.

quinta-feira, março 22

Lealdade

.


E com eles,
Vontades se atritando.
O beijo ausente de afeto.
Verdade que despreza o coração.
As trocas.
Quando somos mais que desejar?

A lealdade a si é o dever simples de não se enganar.
O desafio de se pertencer.

                                                                (Landeira)






.

quarta-feira, março 14

Um dia que ficou em mim

.





Me falta você
Falta mais esse dia
Falta de longe
Falta de muito
De tanto sol, de todo caminho
Vem te trazer
E parte a saudade que chegou tão cedo

                                              (Landeira)



.

segunda-feira, março 12

Erros

.




Não perdoa a pele.
Me serve de pecados.
Tão de perto me empurra contra mim,
Que a cheiro.
A imito.

Não perdoa a noite.
Meus gritos algemados na garganta.
As memórias plásticas e soturnas.
Páginas marcadas soprando violentas.
O que foi o meu querer.

E de joelhos no chão. Na queda.
O castigo imediato.
Ardendo, estalando, sangrando nas conseqüências de mim.
A vontade de nada. De ser coisa alguma.
Envolvido em mudez. Afogado em meus olhos.
Longe de outras chances.
Salvo na fuga do que não resisto.


                                                        (Landeira)








.



domingo, fevereiro 26

Mordido

.











Me falta um pedaço que foi bem mordido por quem não posso culpar.
Lembro-me inteiro e como antes sentia ali onde não faltava.
Não fui surpreendido por aquela malícia.
Sabia dos dentes, do profundo olhar que traga.

Deixei sem interromper. Era vivo; era eu e meu.
Fui aquela parte levado como por alguém que espalhasse minhas palavras nos ouvidos de tantos, nos encontros e apresentações, nas ruas escurecidas que estão poucos a sorrir.

Deixei.

Sou resignificado.
A Parte que foi, deixa o espaço e todo seu passado inviolado.
As linhas preenchidas são mais soltas e vão mais facilmente por todas essas janelas abertas.
Delas não se vê o jardim; se vê lua. Ficou mais frio, mais denso e escuro.

A Parte que foi, deixa o espaço.
Lembro-me inteiro e como antes sentia ali onde estava.
Resignifico meus dedos nessas linhas preenchidas.

Receoso ainda. Mordido. Sem medo atravesso a noite.
Entroso movimentos nas voltas do que vejo e do que foi.
Tão vivo quanto são as charadas e as metáforas que se tornam uma na outra.
Ora com chances, ora sem apelos.

                                                                                   (Landeira)






.

sábado, fevereiro 25

Gotas

.







Como estátuas de gelo
Derretemos lento
Em gotas, gotas
Sentimentos atados à alma por lembranças que fazem chorar
Percorrendo caminhos na pele
Sem temperatura, sem tempo
Acabando enquanto descem
Enquanto toque


                                                                           (Landeira)















Artista escultora - Nele Azevedo


.

sexta-feira, fevereiro 17

Sonho aqui

.







Para que sonhos partir,
Quando os sonhos estão nas palavras?
Ao cedo? Ao gosto? A opção?
À frente?
A referir e sangrar em qualquer parte?
Mesmo que vingue?  Mesmo que desperte?
Até o possível? Até a verdade?
Mesmo que se queira sumir?
O melhor do mundo é a realidade.
Se foi sonho ou se não pensada.
O acontecimento. O pulso. A chegada. A volta.
Tempo e posição. Ponto cravado.

Logo vejo que fico.

                                                        (Landeira)






.